O arroz, o feijão, o pão, o óleo, a carne, o leite e os ovos que chegam à sua mesa dependem de uma cadeia global que quase ninguém vê: a cadeia dos fertilizantes.
O Brasil é uma potência agrícola. Produz alimentos, fibras e energia para o mercado interno e para o mundo. Mas existe uma fragilidade estratégica por trás dessa força: grande parte dos fertilizantes usados nas lavouras brasileiras vem de fora.
Isso significa que a produtividade do campo brasileiro depende de navios, portos, câmbio, contratos internacionais, minas em outros países, gás natural, rotas marítimas, sanções econômicas, guerras e decisões políticas tomadas a milhares de quilômetros daqui.
Quando essa cadeia funciona bem, o tema quase não aparece no noticiário. Mas quando há guerra, crise energética, restrição de exportação ou alta no frete marítimo, o problema fica evidente: se o fertilizante fica mais caro ou escasso, o custo de produzir alimentos sobe.
E quando o custo de produzir alimentos sobe, em algum momento essa pressão pode chegar ao supermercado.
Para entender por que fertilizante virou assunto de segurança alimentar e geopolítica, precisamos começar pelo básico.
O Que São Fertilizantes
Fertilizantes são substâncias usadas para fornecer nutrientes às plantas.
Assim como uma pessoa precisa de nutrientes para crescer e se manter saudável, as plantas também precisam de elementos químicos essenciais para se desenvolver. Entre os principais estão nitrogênio, fósforo e potássio — o famoso NPK.
O nitrogênio ajuda no crescimento vegetativo da planta, especialmente folhas e estrutura.
O fósforo é importante para raízes, florescimento, energia e desenvolvimento inicial.
O potássio contribui para resistência, enchimento de grãos, qualidade e equilíbrio fisiológico.
Além desses três, existem nutrientes secundários, como cálcio, magnésio e enxofre, e micronutrientes, como zinco, boro, cobre, manganês, ferro e molibdênio.
Sem esses nutrientes, a planta até pode crescer, mas cresce menos, produz menos e fica mais vulnerável a estresse, pragas, doenças e variações climáticas.
Na agricultura moderna, fertilizantes são parte central da produtividade.
Não é exagero dizer que uma parte importante da produção mundial de alimentos depende deles.
Por Que o Brasil Usa Tanto Fertilizante
O Brasil usa muito fertilizante porque produz muito.
Soja, milho, cana-de-açúcar, café, algodão, arroz, feijão, trigo, frutas, hortaliças, pastagens e florestas plantadas dependem de nutrientes para manter produtividade.
O Plano Nacional de Fertilizantes aponta que o Brasil responde por cerca de 8% do consumo global desses insumos, ocupando a quarta posição mundial, atrás apenas de China, Índia e Estados Unidos.
Soja, milho e cana-de-açúcar concentram a maior parte desse consumo. Essas três cadeias são gigantes na economia brasileira e dependem diretamente de adubação para sustentar produtividade em larga escala.
Há outro fator importante: muitos solos tropicais brasileiros são naturalmente pobres em alguns nutrientes ou apresentam limitações químicas, como acidez elevada e baixa disponibilidade de fósforo.
A expansão agrícola brasileira só foi possível porque o país desenvolveu tecnologia para corrigir e manejar esses solos. Calcário, fertilizantes, pesquisa agronômica, melhoramento genético, plantio direto e manejo tropical transformaram áreas antes consideradas pouco produtivas em regiões altamente eficientes.
Ou seja: fertilizante não é apenas um insumo. Ele é parte da base tecnológica que sustenta o agro brasileiro.
O Tamanho da Dependência Externa
Aqui está o ponto mais sensível.
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. Em 2025, o Ministério da Agricultura voltou a destacar essa dependência como uma vulnerabilidade estratégica para o país.
A Conab informou que as importações brasileiras de fertilizantes chegaram a 45,5 milhões de toneladas em 2025, superando as 44,28 milhões de toneladas de 2024 e estabelecendo um novo recorde da série histórica.
Esse número mostra a dimensão da cadeia.
Todos os anos, dezenas de milhões de toneladas de insumos chegam por navio aos portos brasileiros, especialmente Paranaguá, Santos e terminais do Arco Norte. Depois, esses fertilizantes seguem por caminhões, trens, barcaças e armazéns até cooperativas, revendas e propriedades rurais.
Antes mesmo de uma semente ir para o solo, uma enorme operação logística já aconteceu.
A produção agrícola brasileira começa muito antes da plantadeira entrar no campo. Começa em minas, fábricas, portos e rotas internacionais.
Por Que o Brasil Importa Tanto
A dependência brasileira não tem uma única causa.
Parte dela é geológica. Alguns nutrientes, como potássio, dependem de jazidas minerais específicas. O Brasil possui reservas, mas nem sempre elas estão disponíveis em condições técnicas, econômicas, ambientais ou logísticas adequadas para exploração em larga escala.
Parte é industrial. A produção de fertilizantes exige fábricas, tecnologia, escala, capital intensivo e cadeias químicas estruturadas.
Parte é energética. Fertilizantes nitrogenados dependem fortemente de gás natural, usado como matéria-prima na produção de amônia e ureia. Se o gás é caro, a produção nacional perde competitividade.
Parte é histórica. Ao longo das últimas décadas, o Brasil reduziu sua participação na produção interna de fertilizantes e passou a depender cada vez mais de importações.
Parte é econômica. Em muitos momentos, importar foi mais barato do que produzir localmente, especialmente em um mercado global com grandes produtores especializados.
O problema é que uma decisão economicamente racional em tempos normais pode virar vulnerabilidade em tempos de crise.
Quando o mundo está estável, importar muito parece eficiente. Quando o mundo entra em conflito, a dependência aparece.
Os Três Grandes Grupos de Fertilizantes
Para entender a dependência, é importante separar os fertilizantes em três grandes grupos: nitrogenados, fosfatados e potássicos.
Os nitrogenados incluem produtos como ureia, nitrato de amônio e sulfato de amônio. Eles estão ligados à indústria química e ao gás natural. Países com gás abundante e barato têm vantagem competitiva.
Os fosfatados dependem da mineração de rocha fosfática e de processos químicos para transformar essa rocha em fertilizantes utilizáveis pelas plantas.
Os potássicos dependem principalmente da mineração de sais de potássio. Esse grupo é especialmente crítico porque a produção mundial é concentrada em poucos países.
Cada tipo tem uma cadeia diferente. Portanto, falar em “fertilizantes” como se fosse um único produto simplifica demais a realidade.
O Brasil pode ter mais capacidade ou potencial em um grupo e maior dependência em outro. As soluções também são diferentes: não se resolve nitrogenado da mesma forma que se resolve potássio ou fósforo.
Essa complexidade explica por que reduzir a dependência externa é um projeto de décadas, não de poucos anos.
Fertilizantes e Geopolítica
Fertilizantes viraram um tema geopolítico porque sua produção é concentrada em poucos países e depende de recursos estratégicos.
Rússia, China, Canadá, Marrocos, Estados Unidos, Egito, Arábia Saudita, Catar e outros países aparecem em diferentes partes da cadeia global, dependendo do tipo de fertilizante.
O Brasil, por sua vez, é um grande comprador.
Isso cria uma relação delicada: o país é líder agrícola, mas depende de fornecedores externos para manter essa liderança.
Quando há uma guerra envolvendo grandes produtores ou exportadores, o mercado reage. Quando um país impõe sanções, a oferta pode ser afetada. Caso a China restringe exportações para proteger seu mercado interno, os preços globais mudam. Quando o gás natural sobe na Europa, fábricas de nitrogenados podem reduzir produção. Quando há crise logística marítima, o frete encarece.
Tudo isso pode afetar o custo do produtor brasileiro.
A guerra entre Rússia e Ucrânia deixou essa vulnerabilidade muito clara. A Rússia é um dos grandes atores globais no mercado de fertilizantes e matérias-primas. As sanções, os riscos logísticos e a incerteza internacional elevaram a preocupação com o abastecimento mundial.
O Brasil conseguiu manter o fluxo de importações, mas o alerta ficou.
Como Isso Chega ao Preço dos Alimentos
O caminho entre fertilizante e supermercado não é imediato, mas existe.
Primeiro, o fertilizante entra no custo de produção do agricultor. Em culturas como soja, milho, café e algodão, os fertilizantes representam uma parte importante do custo operacional.
Se o preço do fertilizante sobe, o produtor precisa gastar mais para plantar.
Se o produtor gasta mais, ele pode tentar repassar esse custo ao preço de venda, dependendo das condições de mercado.
No caso de commodities, o preço não é definido apenas pelo produtor brasileiro. Ele depende do mercado internacional, câmbio, oferta global, demanda chinesa, clima, estoques e logística.
Mesmo assim, custos elevados reduzem margem e pressionam a cadeia.
O impacto pode se espalhar. Milho e soja entram na ração animal. Ração mais cara pode afetar frango, suíno, leite e ovos. Fertilizantes também afetam arroz, feijão, trigo, hortaliças, frutas e cana-de-açúcar.
O consumidor não vê o fertilizante na etiqueta do alimento. Mas parte do custo pode estar escondida ali.
Fertilizante Não É Apenas Problema do Produtor
É comum tratar fertilizantes como uma preocupação exclusiva do agro. Mas isso é limitado.
Fertilizante é tema de segurança alimentar.
Um país que depende fortemente de fertilizantes importados fica vulnerável a choques externos que podem afetar a produção de comida.
Também é tema de balança comercial. O Brasil gasta bilhões de dólares todos os anos importando esses insumos. Esse dinheiro sai do país e aumenta a exposição ao câmbio.
É tema de indústria. Produzir fertilizantes envolve mineração, química, energia, tecnologia, engenharia e logística.
É tema de infraestrutura. Fertilizantes entram por portos, seguem por corredores logísticos e precisam chegar ao interior antes do plantio.
É tema ambiental. O uso inadequado pode gerar perdas, contaminação, emissão de gases e desperdício de nutrientes.
E é tema de inovação. O Brasil precisa desenvolver soluções adaptadas aos solos tropicais, aumentando eficiência e reduzindo desperdício.
Portanto, fertilizante não é apenas “adubo”. É uma questão estratégica nacional.
O Plano Nacional de Fertilizantes
O Plano Nacional de Fertilizantes foi criado para reduzir a vulnerabilidade brasileira no setor.
A meta discutida pelo governo é diminuir a dependência externa, hoje em torno de 85%, para cerca de 50% até 2050.
Isso não significa produzir tudo internamente. Significa tornar o país menos vulnerável.
O plano envolve várias frentes: ampliar a produção nacional, atrair investimentos, reativar ou modernizar unidades industriais, desenvolver novas tecnologias, estimular pesquisa, melhorar o ambiente regulatório, fortalecer cadeias minerais e buscar maior eficiência no uso dos insumos.
É um projeto de longo prazo porque fertilizantes não dependem apenas de vontade política. Dependem de jazidas, licenciamento ambiental, energia competitiva, infraestrutura, escala industrial, tecnologia e mercado.
A meta de 2050 mostra justamente isso: reduzir dependência é possível, mas não é rápido.
O ponto central é que o Brasil precisa sair de uma postura reativa para uma postura estratégica.
Não dá para lembrar dos fertilizantes apenas quando há guerra ou crise de preços.
Produzir Mais no Brasil Resolve Tudo?
Não.
Aumentar a produção nacional pode reduzir riscos, gerar empregos, fortalecer a indústria e melhorar a segurança de abastecimento. Mas não resolve tudo sozinho.
Primeiro, porque alguns fertilizantes dependem de recursos naturais que o Brasil não possui em escala competitiva ou que estão em áreas ambientalmente sensíveis.
Segundo, porque produzir localmente pode ser mais caro do que importar, dependendo do tipo de insumo.
Terceiro, porque grandes projetos de mineração e indústria química exigem tempo, licenciamento, capital e infraestrutura.
Quarto, porque a produção nacional também pode ter impactos ambientais relevantes.
Quinto, porque uma cadeia totalmente autossuficiente pode não ser economicamente racional.
O objetivo mais realista não é autarquia total. É diversificação e resiliência.
O Brasil precisa combinar produção nacional, diversificação de fornecedores, estoques estratégicos, eficiência no uso, inovação tecnológica e logística eficiente.
Segurança não significa produzir tudo sozinho. Significa não depender demais de poucos caminhos.
A Importância de Diversificar Fornecedores
Diversificar fornecedores é uma das formas mais rápidas de reduzir risco.
Se um país compra a maior parte de determinado insumo de poucos fornecedores, qualquer problema nesses fornecedores vira problema nacional.
Ao buscar alternativas em diferentes regiões, o Brasil reduz a chance de uma crise localizada paralisar o abastecimento.
Mas diversificar não é simples.
Cada fornecedor tem preço, qualidade, tipo de fertilizante, logística, distância, capacidade de entrega e risco político. Um produto vindo do Canadá tem uma dinâmica. Um produto vindo do Marrocos tem outra. Um nitrogenado vindo do Oriente Médio depende de outra cadeia. Um produto vindo da China pode ser afetado por políticas internas chinesas.
Além disso, a diversificação precisa ser compatível com a necessidade agronômica. Não basta comprar qualquer fertilizante. É preciso comprar o produto certo, na formulação adequada, no prazo correto e com qualidade garantida.
A agricultura trabalha com janela de plantio. Se o fertilizante chega tarde, o prejuízo pode ser grande.
Por isso, diversificar fornecedores é também diversificar logística.
Estoques Estratégicos: Solução ou Custo?
Em momentos de crise, surge a ideia de formar estoques estratégicos de fertilizantes.
A lógica é compreensível: se o país depende de importações, deveria ter uma reserva para enfrentar choques de curto prazo.
Mas estoques estratégicos têm custos.
Fertilizantes precisam ser armazenados adequadamente. Alguns produtos são sensíveis à umidade, empedramento e contaminação. Manter estoques exige armazéns, controle, capital imobilizado, seguro, rotação e gestão.
Além disso, o mercado de fertilizantes é grande. Manter estoque para todo o país por muito tempo exigiria volume enorme e custo elevado.
Mesmo assim, estoques podem fazer sentido em situações específicas, especialmente para reduzir riscos de curto prazo em momentos críticos de plantio.
A questão não é simplesmente “ter ou não ter estoque”. A questão é: qual produto, em qual volume, onde armazenar, quem paga, quem gerencia e quando usar?
Sem boa governança, estoque estratégico pode virar desperdício. Com boa gestão, pode ser seguro contra crises.
Eficiência no Uso: Produzir Mais Com Menos
Uma das soluções mais importantes não está apenas em produzir ou importar mais fertilizante. Está em usar melhor.
Eficiência no uso de nutrientes significa aplicar a dose correta, no momento correto, no local correto e na forma correta.
Tecnologias como agricultura de precisão, análise de solo, mapas de fertilidade, aplicação localizada, sensores, manejo de taxa variável, inoculantes, bioinsumos e sistemas integrados podem reduzir perdas e aumentar o aproveitamento pelas plantas.
Se o produtor aplica fertilizante de forma inadequada, parte do nutriente pode ser perdida por lixiviação, volatilização, erosão ou fixação no solo.
Isso é ruim economicamente e ambientalmente.
Para o produtor, significa dinheiro jogado fora. Para o ambiente, pode significar contaminação de água, emissão de gases e desequilíbrio do solo.
Aumentar a eficiência é uma forma de reduzir dependência sem necessariamente reduzir produtividade.
É o tipo de solução que combina agronomia, tecnologia e gestão.
Bioinsumos e Remineralizadores
O Brasil também discute alternativas complementares aos fertilizantes tradicionais.
Bioinsumos são produtos de origem biológica usados para melhorar o desenvolvimento das plantas, fixar nitrogênio, solubilizar fósforo, estimular raízes ou aumentar a resistência a estresses.
Remineralizadores são materiais de origem mineral que podem liberar nutrientes de forma gradual no solo, dependendo de sua composição e do contexto agronômico.
Essas alternativas não substituem todos os fertilizantes convencionais em todas as culturas. Mas podem reduzir parte da dependência, melhorar a eficiência do uso de nutrientes e adaptar melhor a agricultura às condições tropicais.
O Brasil tem experiência importante com fixação biológica de nitrogênio, especialmente na soja, onde bactérias ajudam a reduzir a necessidade de adubação nitrogenada.
Esse é um exemplo de inovação tropical com impacto econômico real.
O futuro provavelmente não será uma solução única. Será um conjunto de soluções: fertilizante mineral, bioinsumo, manejo de solo, agricultura de precisão, rotação de culturas e pesquisa.
A Logística dos Fertilizantes
Fertilizantes também são um problema logístico.
Eles chegam ao Brasil principalmente por portos. Depois precisam ser descarregados, armazenados, misturados, transportados e distribuídos para regiões produtoras.
Paranaguá é historicamente uma das principais portas de entrada. Santos e portos do Arco Norte também têm papel relevante.
O desafio é que os fertilizantes precisam chegar antes do plantio. Se atrasam, comprometem o calendário agrícola.
Além disso, fertilizantes importados muitas vezes fazem o caminho inverso das exportações agrícolas. O navio traz fertilizante. Caminhões, trens ou barcaças levam esse insumo para o interior. Depois, meses mais tarde, grãos saem do interior para os portos.
Uma logística inteligente tenta equilibrar esses fluxos.
Se o caminhão leva fertilizante para o interior e depois volta carregado com grãos, o sistema ganha eficiência. Se roda vazio, o custo aumenta.
Por isso, fertilizantes estão conectados à discussão sobre armazenagem, ferrovias, hidrovias, portos e cabotagem.
O insumo que entra no país é parte da mesma cadeia que depois exporta alimentos.
O Papel do Câmbio
Como grande parte dos fertilizantes é importada, o câmbio tem impacto direto sobre o custo.
Mesmo que o preço internacional do fertilizante esteja estável em dólar, uma desvalorização do real pode encarecer o produto para o agricultor brasileiro.
Isso cria uma vulnerabilidade adicional.
O produtor vende parte de sua produção em mercados ligados ao dólar, como soja e milho. Mas também compra insumos dolarizados. Dependendo do momento de compra e venda, pode ganhar ou perder margem.
Por isso, muitos produtores fazem planejamento antecipado, travam preços, compram fertilizantes antes da safra ou usam estratégias de hedge.
Para quem está fora do setor, parece simples: “o fertilizante subiu”. Para quem produz, a conta envolve dólar, frete, crédito, prazo, preço futuro da commodity, produtividade esperada e risco climático.
A gestão de insumos é uma decisão financeira estratégica.
O Risco de Crises Internacionais
A dependência externa se torna mais perigosa quando o mundo entra em instabilidade.
Guerras, sanções, bloqueios marítimos, crises energéticas, disputas comerciais e restrições de exportação podem afetar preços e disponibilidade.
A China, por exemplo, já adotou restrições ou controles sobre exportações de fertilizantes em determinados momentos para proteger seu mercado interno.
A Rússia, por sua importância no mercado global, ganhou atenção especial após a guerra na Ucrânia.
O Oriente Médio importa para a cadeia de nitrogenados por causa do gás natural e da produção petroquímica.
O Canadá é relevante para potássio.
Marrocos é estratégico para fosfatos.
Cada região carrega riscos próprios.
Quanto mais concentrada a dependência, maior a exposição brasileira.
Essa é a razão pela qual fertilizantes deixaram de ser apenas tema técnico do agrônomo e passaram a ser assunto de geopolítica.
O Que Aconteceria Se Faltasse Fertilizante?
Um choque grave de oferta poderia ter vários efeitos.
No curto prazo, os preços subiriam. Produtores com estoque ou compra antecipada ficariam protegidos. Produtores sem planejamento sofreriam mais.
Em seguida, alguns agricultores poderiam reduzir doses, mudar culturas, adiar plantio ou buscar alternativas.
Se a redução de adubação fosse significativa, a produtividade poderia cair. Menor produtividade significaria menor oferta de alimentos e commodities.
Dependendo da cultura, isso poderia afetar preços internos, exportações, renda no campo e abastecimento.
O efeito não seria igual para todos. Grandes produtores com planejamento e acesso a crédito tendem a se proteger melhor. Pequenos produtores podem ser mais vulneráveis.
Esse cenário extremo não é inevitável, mas mostra por que a dependência preocupa.
Na administração, risco não é apenas o que já aconteceu. É o que pode acontecer e para o qual o sistema precisa estar preparado.
Fertilizantes e Segurança Alimentar
Segurança alimentar não depende apenas de produzir comida. Depende de garantir condições para que a produção aconteça de forma estável.
Sementes, água, solo, crédito, máquinas, energia, clima, transporte e fertilizantes fazem parte dessa segurança.
Um país que domina a produção agrícola, mas depende fortemente de insumos externos, tem uma segurança alimentar parcial.
Isso não significa que o Brasil esteja em risco imediato de desabastecimento. O país tem uma agricultura robusta, produtores experientes, instituições de pesquisa e cadeias comerciais bem estruturadas.
Mas significa que existe vulnerabilidade.
E vulnerabilidades precisam ser gerenciadas antes da crise.
O Plano Nacional de Fertilizantes, a diversificação de fornecedores, a produção nacional, a inovação e a eficiência agronômica são formas de reduzir esse risco.
Por Que Isso Importa Para Empresas
Para empresas do agro, fertilizantes são um dos principais itens de gestão estratégica.
Cooperativas, revendas, tradings, produtores e agroindústrias precisam planejar compras, estoques, financiamento, logística e risco cambial.
Uma compra feita no momento errado pode comprometer margem. Uma entrega atrasada pode prejudicar plantio. Uma dependência excessiva de um fornecedor pode gerar risco operacional.
Para empresas de transporte e portos, fertilizantes representam fluxo relevante de carga. Para bancos, são parte do financiamento da safra. Isso para seguradoras, influenciam risco produtivo. Para indústrias de alimentos, afetam custo de matéria-prima.
Ou seja: a cadeia de fertilizantes é uma cadeia de suprimentos dentro da cadeia de alimentos.
Quem entende essa cadeia antecipa riscos. Quem ignora, reage tarde.
Por Que Isso Importa Para o Brasil
Para o Brasil, fertilizantes são estratégicos por quatro razões.
Primeiro, porque sustentam a produtividade agrícola.
Segundo, porque afetam o custo de alimentos.
Terceiro, porque impactam a balança comercial.
Quarto, porque envolvem soberania produtiva e segurança alimentar.
O Brasil não precisa fechar sua economia nem tentar produzir tudo internamente a qualquer custo. Mas também não pode depender passivamente do mercado internacional como se ele fosse sempre estável.
A estratégia mais inteligente é reduzir vulnerabilidades.
Isso significa produzir mais onde for viável, importar de fornecedores diversos, investir em tecnologia tropical, melhorar logística, formar profissionais, ampliar pesquisa e usar melhor cada quilo de nutriente aplicado no solo.
O futuro do agro brasileiro depende tanto da produtividade da lavoura quanto da inteligência da cadeia que a abastece.
A Grande Lição dos Fertilizantes
Os fertilizantes mostram que nenhuma cadeia produtiva é isolada.
O alimento que chega à mesa parece nascer na fazenda. Mas, antes da fazenda, existe uma rede global de minas, fábricas, navios, portos, contratos, moedas e decisões políticas.
Essa rede invisível sustenta a produtividade do campo.
Quando tudo funciona, o consumidor não percebe. Quando falha, os preços sobem, os produtores sofrem e os governos correm para buscar soluções.
A grande lição é simples: produzir muito não basta. É preciso garantir os insumos que tornam essa produção possível.
O Brasil é uma potência agrícola. Mas, para transformar essa potência em segurança de longo prazo, precisa tratar fertilizantes como estratégia nacional.
Por Que Isso Importa Para Você
Você talvez nunca compre fertilizante. Talvez nunca veja uma carga de ureia chegando ao porto. Talvez nunca acompanhe o preço do potássio ou do fósforo no mercado internacional.
Mas você consome o resultado dessa cadeia todos os dias.
No arroz, no feijão, no pão, no leite, na carne, no ovo, no óleo, no açúcar, no café e em muitos outros produtos.
Quando o fertilizante sobe, o produtor sente. Quando o produtor sente, a cadeia se ajusta. E quando a cadeia se ajusta, o consumidor pode sentir.
Entender fertilizantes é entender uma parte invisível do preço da comida.
É por isso que esse tema não interessa apenas ao agronegócio. Ele interessa a todos nós.
Referências
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